Re-filmar ou Reinventar? Eis o novo cinemão? “Bravura Indômita ”

Logo nessa primeira linha vou dizer: “Bravura Indômita” é o melhor filme dos Irmãos Coen. Deixando para trás filmes sensacionais de sua cinegrafia, como “Fargo”, “O Grande Lewboski” e “Onde os Fracos Não Têm Vez”.

Mas como “Bravura Indômita” conseguiu superar uma das comédias mais “negras” de todos os tempos (“Fargo”)? Passou por cima de um ícone do cinema moderno (o Dude de “O Grande Lewboski”)? E transportou os irmãos um passo adiante na escola de cinema que eles enveredaram estilisticamente há pouco tempo (“Onde os Fracos Não Têm Vez”)?

Resposta: indo na fonte. E a fonte não é se utilizar de um estilo de se fazer cinema como o que foi feito pelos mestres John Ford (de “Rastros de Ódio”, 1956) e Sam Peckinpah (de “Meu Ódio Será Sua Herança”, 1969), em certos momentos eles até o fazem. Mas isso não é o filme, o filme está em esperar por quase dois minutos a chegada de um personagem e quando o mesmo se revela está vestido com uma carcaça de um urso. Este é o toque especial dos Coen.

Mas aqui fica outra consideração, antes de falarmos do filme em si: um dos maiores méritos dos Coen é que eles seguem o roteiro. No caso de “Bravura”, eles seguiram a risca o maravilhoso texto de Charles Portis. E isso não é um demérito.

Faço um adendo a minha afirmação acima. Quando li “O Senhor dos Anéis, a sociedade do anel” e em seguida vi o filme de Peter Jackson, senti o mesmo que sinto, agora, ao ler o livro/romance de Portis: um roteiro/livro não é pra ser seguido do início ao fim, mas se alguém se dedicou a escrever aquilo, porque não dar a devida importância?

Outro adendo: um roteiro/história, não é tudo para um cineasta, mas como o próprio nome o diz, é um roteiro, deve como principal função, influenciar suas criações em cena. Traduzindo: é impossível um diretor, por melhor que ele seja, dizer que aquela solução inventiva que “não estava no roteiro” realmente foi realizada por sua só sapiência. Afinal, se eu conto uma história para você e você a imagina contá-la de outra forma, minha primeira intenção, de influenciá-lo a pensar naquele contexto, já foi realizada.

O que quero dizer é: é demérito falar que a história foi seguida em tela, como foi escrita em argumento? Não. Isso deprecia as qualidades artísticas de um diretor? Óbvio que não. Afinal, qual é a primeira coisa que o faz contar aquela história em tela maior? O roteiro, a história.

Essa característica, a de somar respeitando a influência do roteiro é algo que dignifica ainda mais a história contada pelos Coen nesse faroeste imperdível, em que: uma garota de catorze anos decide ir atrás do homem que matou seu pai. Nem que pra isso, ela contrate um agente beberrão ou conte com a ajuda de um ranger que está de olho na recompensa estipulada por outras cidades por onde o tal assassino já passou.

O filme passa rápido. Os bons momentos são tantos que seria necessário mais um artigo para colocá-los aqui. E assim como a direção de arte que prima por não complicar o ambiente com referências, a fotografia apurada de Roger Deakins (o mesmo de “Um Sonho de Liberdade”, “Uma Mente Brilhante”, “A Vila”, “Soldado Anônimo” e “O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford”), em seu 11º trabalho ao lado dos Coen, é um capricho a mais que transforma este “Bravura Indômita” em um clássico moderno.

Duas considerações a mais: a atuação de Jeff Bridges (que não sofreu a maldição do Oscar em fazer um filme ruim após receber o prêmio, apesar de “Tron, o Legado”)e da novata, em cinema, Hailee Steinfeld, são dignas de nota e prêmios. Infelizmente para ambos, houve uma compensação no Oscar, que ignorou um trabalho anterior de Colin Firth em “Medo de Amar” e outro bom trabalho de Melisa Leo, em “Rio Congelado”. Os recompensando neste ano, em que estavam abaixo dessas duas belíssimas interpretações deste faroeste.

Filme para se ter na estante de clássicos modernos. E porquê não, ao lado do primeiro “Bravura Indômita”. Nota 9,0.

Ah, caso você queira dar uma conferida no roteiro adaptado, pelos Coen, de “Bravura Indômita”, confira no Cinema em cena , lá está o deste e de todos os filmes que foram indicados ao Oscar deste ano.

Texto por Rodrigo Castro

Publicado originalmente em A Sétima e todas as artes

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