A Sobra do Oscar: “O Mágico

Três filmes concorreram na categoria de melhor filme de animação neste último Oscar. Ganhou o mais fraco deles e por um fator simples: os votantes desta premiação são as pessoas que um dia foram indicadas e as que, obviamente, levaram o prêmio. Assim é lógico que “Toy Story 3” levaria a estatueta dourada, afinal, este é o primeiro filme em computação gráfica a fazer sucesso da companhia e que nunca havia levado nada.
No dia da premiação, fiquei triste por “Como Treinar o Seu Dragão” ter sido ignorado, pois é muito mais filme que o do caubói com o astronauta. Mas após assistir ao excelente “O Mágico” a sensação de que o Oscar realmente é uma premiação dispensável para quem busca um cinema melhor, com boas histórias e técnicas mais apuradas, torna-se presente, como um fato.
“O Mágico” é o segundo filme dirigido pelo francês Sylvain Chomet. Antes ele havia dirigido o já clássico e também ignorado pelo careca durado “As Bicicletas de Belleville” – se você ainda não assistiu veja, é um dos filmes obrigatórios da última década. Ali já havia uma semente do pensar cinema desse diretor: nada de muitas falas – respeitando o clássico pensamento de Chaplin que dizia que o cinema fala pela imagem – cenários grandiosos e que preenchem a tela, com muito movimento, e personagens únicos com características interessantes e muito engraçadas.

Neste filme Sylvain dá um passo a mais em seu olhar. Ao ter adquirido os direitos do último roteiro escrito pelo ator/roteirista/diretor e ícone da comédia francesa Jacques Tati, em que um mágico clássico, com truques marcantes, mas nada modernos encara o desafio da sobrevivência, Chomet mostra simplicidade e até mesmo vanguardismo em um mundo repleto de 3D.
O desafio de preencher a tela com algo que não vai saltar em sua direção ou chamar atenção pelo realismo faz com que “O Mágico” envolva os espectadores com cenas embasbacantes de puro cinema que orgulharia não somente o mestre Tati, como seu inspirador Chaplin. É no jeito de ser, no aspecto de movimento mesmo, que o personagem principal nos ganha.
O arrebatamento final vem com: os personagens que cercam o tal mágico – repare no coelho e principalmente no escocês bêbado – as cenas em formato de sketches – algo bem comum nos grandes comediantes, que juntavam várias situações para montar um filme – a trilha maravilhosa e uma direção de arte minimalista que encanta, desde um homem de 33 anos até seu filho de 03.
Filmão, daqueles que em um passe de mágica enche seus olhos d´água e num abracadabra formam sorrisos inesperados em seus rosto. Nota 9,0.
Obs.: há uma cena emblemática em que o Mágico do filme entra em um cinema e assiste a uma cena do filme mais conhecido de Tati, “Meu Tio”.

Texto por Rodrigo Castro

Publicado originalmente em A Sétima e todas as artes

 

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