Uma lua no céu, 10 pãezinhos na mesa

“Ao final do dia, cansado  por ter perseguido  o sol o dia inteiro, o girassol parou para tomar fôlego e olhou pra trás, e foi aí que ele viu. A lua. ” 
O anoitecer da quarta feira, 13 abril, reservou para a jovem equipe do Maodita uma experiência que marca esse pouco mais de 1 ano de existência. Ao lado de Hemanuel Jhosé, do blog Conceito Au, a entrevista com os gêmeos quadrinistas Fábio Moon e Gabriel Bá, 34 anos, foi um presente inesperado (e conquistado) para os leitores. Um presente que, assim como a visita dos gêmeos à cidade, chegou na surdina. O Largo de São Sebastião, no centro de Manaus,  foi o cenário para a dupla falar sobre influências e perspectivas que os acompanham na carreira movida por paixão pela nona arte.
A entrevista é extensa e precisou ser dividida em três partes: Quadrinhos, Imprensa e Internet; Música, Milton Hatoum e curta-metragens; e Daytripper, Manaus e o Futuro.   Agora você confere a primeira parte: Quadrinhos, Imprensa e Internet.
Quadrinhos, imprensa e internet 
Vocês iniciaram a carreira produzindo fanzines e já  estão trabalhando há mais de 10 anos. O que é mais fácil hoje em dia para quem quer começar a produzir HQs e quais os desafios permaneceram até hoje?
Gabriel Bá – Eu acho que hoje é mais fácil publicar quadrinhos, é mais fácil ter acesso à gráficas pra produzir de forma independente e as editoras abriram novamente para publicações de autores nacionais. Todo o resto continuou difícil e talvez tenha ficado mais.
Fábio Moon – Tudo o que é fácil demais, exige esforço de menos. Quadrinhos é uma coisa que você tem que se esforçar. Como ficou mais fácil, tem muita gente preguiçosa fazendo quadrinhos. Eu acho que o lado negativo possa ser esse; as pessoas conseguem de forma muito fácil uma evidência mínima, porque a internet facilita isso, sem ter preparo. Aí ou o público se decepciona ou o autor se decepciona com os tropeços que ele vai ter no início da carreira.
Os quadrinhos no Brasil seguem uma tradição humorística. Baseado em suas experiências, vocês acreditam que essa questão mudou nos últimos anos?
GB – Olha, primeiro não é fácil fazer quadrinhos no Brasil. Seja de humor, infantil ou adulto. Isso é algo que todo autor vai acabar descobrindo uma hora ou outra. Fazer quadrinhos de humor, por exemplo, não é uma garantia de sucesso, de qualidade. Acho que história em quadrinhos não é um campo que tem uma fórmula que seja fácil conseguir um sucesso.
FM – Senão tinha um monte de quadrinhos para criança e não tem. Na verdade tem um monte de quadrinho para criança, mas não fazem sucesso.
GB – Ou de mangá, que é o que mais faz sucesso, e que tem muita molecada que gosta de desenhar. Mas eles não fazem histórias de 200 páginas. Eles não compreendem toda linguagem por trás do estilo do mangá, o tipo de história, o estilo de narrativa, o ritmo, eles só querem fazer o desenho. E se hoje em dia a Turma da Mônica Jovem, que é meio mangá, faz sucesso é por que tem gente por trás disso que faz quadrinhos há muito tempo.
FM – Acho que a gente queria fazer o tipo de quadrinho que queríamos ler, já que era uma coisa que a gente não via em quadrinhos.
GB Quem trabalha com humor é porque realmente gosta e não porque é mais fácil. Fazer humor não é fácil, é muito difícil. Fazer uma coisa engraçada de verdade. Trabalhar com humor, sem ser de mau gosto ou saber o tom do mau gosto, como o Alan Sieber.
FM – O quadrinho de humor explodiu como uma reação à ditadura. Uma reação de não poder falar sério sobre as coisas, então tinham que falar por meio do humor. E quando não tem ditadura não tem mais os rebeldes. Eles vão se interessar por outras coisas. Vão reagir à outras coisas. Aí eu acho que a gente não faz humor por causa disso, não tem que ficar reagindo e falando sobre a sociedade por meio do humor.
GB – É diferente fazer humor e trabalha com humor.
FM – Quem trabalha com humor sempre é engraçado, sempre tem uma piada. Tem por exemplo o Fernando Gonsales (autor de Níquel Náusea), tudo o que ele fala é engraçado. Todas as piadas dele são engraçadas. Ele fez biologia. Então ele só pensa em bichos. Tudo é bicho. Então faz sentido.
Se uma pessoa de uns 18 anos que quer começar a ler quadrinhos pedisse a vocês uma indicação de obra, qual vocês indicariam?
FM – Ah, tem um gibi que a gente leu faz uns 4 anos atrás, o Fun Home (da norte-americana Alison Brechdel). Aquele gibi é bom para jovens adultos. Porque fala meio sobre a descoberta da identidade, a relação com os pais que é uma coisa que só vai resolver depois. Nesse mesmo sentido tem um quadrinho que saiu ano passado chamado Memória de elefante (do paulista Caeto). Fala sobre ser jovem, querer fazer artes e a vida fudida que é essa escolha.
GB – Retalhos (de Craig Thompson) é um bom início de quadrinhos.
FM – É um bom início de quadrinhos para as meninas né?
GB – Ah, para os meninos também.
FM – Ok, para os meninos também.
Vocês tem um trabalho de divulgação consolidado na internet. O que vocês pensam da questão dos direitos autorais no ciberespaço?
FM – Poutz, a gente não dá a mínima. Porque quando a gente não fazia sucesso ninguém baixava nossos quadrinhos. Quando a gente fez sucesso todos baixaram. Então se eles baixam, eles vão ler e talvez comprem. Eu não vejo nenhuma coisa que passou a vender menos por causa dos scans. É tipo um público que já não ia comprar, ou que não conhece, ou que não consegue achar. Mas é um público que está lendo nosso trabalho.
GB – Agora os quadrinhos viraram um negócio caro, então tem que sempre ter mente essa questão econômica. Gibi é caro, graphic novel como nós fazemos é caro.
E quanto aos blogs, webcomics e todas essas facilidades da internet, como isso influencia para quem quer começar?
GB – As pessoas poderiam ter um blog e mostrar um processo de evolução ali, aos olhos do público. Porque tem muita gente que só faz quadrinho no tempo livre, sem ter uma meta.Publicar não é uma meta. Uma meta é querer ser tão bom quanto um artista que você admira. Ou ter uma história tão impactante como alguma que você leu. Poucos artistas têm essa meta. E são esses que se destacam. A internet é uma entrada fácil, mas o caminho é difícil.
Como é a relação de vocês com a imprensa? Vocês sentem que a divulgação de seus trabalhos é sincera por parte dos jornalistas de cultura?
GB – Olha, para ser bem honesto, a relação com a imprensa sempre começa muito do zero. Porque não existe imprensa especializada. Então toda vez que lançamos um livro ou temos algum tipo de destaque sobre o nosso trabalho…
FM – Ficamos com a impressão que começa do zero. Porque tem as mesmas perguntas, são pessoas que não conhecem nosso trabalho ou pessoas que conhecem, mas fazem as mesmas perguntas. Parece que nossa carreira começou naquele livro.
GB – Acham que fizemos sucesso nos EUA para depois voltar para o Brasil. E milhares de coisas. A imprensa deveria informar, mas ela não informa. As pessoas fazem uma notícia hoje que daqui a um minuto já e velha. Amanhã ninguém vai lembrar mais e a mídia impressa sofre com isso. E isso é um problema para um mercado que é muito pequeno e restrito como o dos quadrinhos.
FM – Por muito tempo o mercado de quadrinhos tinha pouco lançamento e isso não justificava ter uma imprensa especializada.
GB – Hoje em dia até  tem, mas não tem resenhas críticas toda semana ou matérias de destaque.
FM – E a gente responde as mesmas perguntas há 15 anos e elas estão na internet há 15 anos e as pessoas não vão à internet atrás para fazer perguntas diferentes.
GB – Sabem que nosso livro está há três semanas como Best-seller do New York Times, mas daqui a uma semana ninguém mais vai saber. Então a imprensa não ajuda.
FM – Mas é porque nós temos uma visão muito crítica das coisas. Temos uma visão crítica dos quadrinhos, então vemos muitos quadrinhos e falamos no que a pessoa pode melhorar. Com a imprensa é a mesma coisa. Porque a imprensa de quadrinhos não pode ser tão legal quanto outras imprensas especializadas?
Muitas histórias que vocês contaram falam sobre o cotidiano das pessoas. Com tantas notícias nos jornais sobre a violência no Brasil, como vocês escolheram retratar esse tema nos quadrinhos?
GB – Olha até agora não muito. Primeiro porque que a violência explorada na imprensa é meio sensacionalista e chavão. Não tem uma contextualização grande, é muito pontual. E nós encaramos nossa obra como algo que seja um retrato de uma época e que sobreviva a um certo tempo. Então não adianta nada eu falar de um negócio que seja muito forte hoje e amanhã pode mudar.
FM – As pessoas morrem em guerra de gangue e tem invasão armada na favela. Mas as pessoas também têm que comprar pão, trabalhar, ter filhos, tem um casamento que dá errado. Essas coisas estão aí também e é sobre isso que nós falamos. E isso o jornal não fala. A novela fala, mas de uma maneira horrível. Porque eles têm o interesse econômico de vender jornal e novela. Então basicamente nós falamos sobre coisas que as pessoas não vendem.
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3 Responses to Uma lua no céu, 10 pãezinhos na mesa

  1. Ruy says:

    Bom trabalho Dirce.
    Foi um salto (ao menos ao meu ver), interessante esses caras. gostei sobre a opinião deles sobre scans, nao leio scans, eu compro originais; mas só compro pq alguem leu e me contou que era bom.
    Vou procurar saber mais sobre eles. Mas há sempre um malvado em meu coração.

    • Dirce Quintino says:

      Valeu Ruy, mas isso não é só mérito meu. É de toda a equipe do Maodita, especialmente a Giovanna e o Hemanuel. Acho que os gêmeos são uma prova de que você pode contar boas histórias em quadrinhos que não fiquem restritas ao público que costuma ler quadrinhos. É uma linguagem acessível à todos!.

  2. Atos Silva says:

    Depois que eu li o seu post, achei que ele � �timo. A maioria das informa��es definitivamente s�o de alta qualidade. Artigos como este fazer valer a pena um website

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