Uma lua no céu, 10 pãezinhos na mesa pt.3

Acompanhe a  tão esperada parte final da entrevista com os quadrinistas Fábio Moon e Gabriel Bá.

Daytripper, Manaus e o futuro

O último trabalho de vocês, Daytripper, está fazendo muito sucesso nos Estados Unidos e na Austrália. Sobre o que se trata a história e quando ela será lançada no Brasil?

Gabriel Bá – O Daytripper é uma história sobre um cara chamado Brás que quer ser escritor. Contamos a história mostrando vários momentos na vida dele que foram importantes para ele se tornar o homem que ele é, momentos que construíram seu caráter. Queríamos trabalhar com a ideia de que qualquer momento na sua vida pode ser importante pra você. Não precisa ser um super acontecimento global, às vezes terminar um relacionamento pode ser algo que vai mudar sua vida dali pra frente. Ou conhecer uma pessoa. Ou publicar um livro, sua vida vai mudar antes ou depois, você começa a enxergar de outro jeito. Como as coisas que acontecem na sua vida vão te transformando e vão construindo sua personalidade. Basicamente, é isso.

Nas  histórias  vocês costumam captar a aura, essência de uma cidade. Como é esse processo?

Fábio Moon – A gente começou focando em São Paulo porque era a realidade que conhecíamos.

GB – Sempre gostamos de autores que usam o cenário para ajudar a história. Quando éramos moleques, lemos o Edifício do Will Eisner. A gente também adorava as histórias do Laerte, porque elas se passavam em São Paulo e nós conhecíamos as ruas, casas e calçadas. Então isso nos influenciou muito, de como você pode agradar o leitor se você caprichar no cenário, colocar um lugar que ele reconheça, pois ajuda o leitor a entrar na história. Sempre pensamos em lugares que façam sentido na história que estamos contando. Quando você trabalha bem o lugar, cria uma camada que pode ser tão interessante quanto o personagem criado.

Durante a pesquisa para produção da Daytripper vocês estiveram em Salvador, cidade na qual se passa a segunda parte da história. Essa experiência deu certo? Ajudou na narrativa?

FM – Não é uma prática comum, mas acho que faz a diferença às vezes. Depende de onde você vai, do que a cidade vai fazer parte da história. Eu acho que fez diferença no Daytripper… a gente pretende fazer sempre que achar que é necessário… (risos)

GB – Estamos em Manaus… (risos) e não só à turismo…

FM – Tem que ter um propósito, porque senão acabamos usando apenas o cartão postal da cidade que a gente não mora, não conhece. E aí depende do propósito, se for só o cartão-postal, tudo bem. Mas se for algo que precise de uma intimidade maior com a geografia da cidade, com o jeito que as coisas acontecem, aí faz diferença.

Se fossem escolher alguma cidade brasileira para aparecer em um futuro quadrinho, qual seria?

GB – Viemos para Manaus para isso, vamos para São Luís, no Maranhão para isso, então… pretendemos ir para o Rio para isso… então.. não sei…

E essa vinda para Manaus e São Luiz vai ser vir para a mesma história?

FM – Ah, isso é segredo (risos). Fazer quadrinhos demora muito tempo, então, como nenhum dos nossos projetos vai sair nos próximos dois anos, nós achamos que divulgar uma coisa numa notícia que só sai daqui a dois anos, não funciona. Já ficamos sem jeito de falar de Daytripper que só sai no fim de agosto… por isso não entramos em detalhe dos projetos futuros porque senão as pessoas esquecem…

E os próximos projetos? No que vocês trabalharão durante 2011?

FM – No Brasil nada sai novo em menos de dois anos, quer dizer Daytripper é lançado no Brasil em Agosto.

GB – Para fora do Brasil tem um Casanova novo, que deve sair em setembro nos Estados Unidos.

____

A equipe do Maodita agradece imensamente  a Gabriel Bá e Fábio Moon não só pela entrevista, mas também por nos presentearem com  histórias que sempre são mais do que personagens e cenários. São sentimentos.

P.S. Durante o 1º Encontro Quadrinhos na Cia, que aconteceu no sábado, 21 de maio de 2011, Gabriel Bá e Fábio Moon abriram o jogo e revelaram que estão adaptando para os quadrinhos a obra  Dois Irmãos, do amazonense Milton Hatoum.

Parte 1

Parte 2

Uma lua no céu, 10 pãezinhos na mesa pt. 2

Agora você acompanha  a segunda parte da entrevista que o Maodita fez com os gêmeos quadrinistas Fábio Moon e Gabriel Bá.

Música, Milton Hatoum e curta-metragens

A obra de vocês também dialoga com a literatura nacional, não só na adaptação de O Alienista, mas também com nomes de personagens (em Daytripper, o protagonista se chama Brás e o seu cachorro, Dante) e situações. Qual o livro favorito de cada um de vocês e qual o último que vocês leram?
Fábio Moon – Capitães de Areia do Jorge Amado foi um livro que nos marcou muito porque lemos quando éramos jovens. Grande Sertões Veredas é excepcional, se você consegue terminar. Porque é um livro que não tem quebra de capítulos. O livro é fenomenal e poético. Atualmente, não é porque estamos em Manaus, mas estamos lendo o Milton Hatoum. Ele escreve de um jeito que quem lê deseja conhecer o Amazonas, cria uma Manaus que dá vontade de descobrir. Talvez seja uma Manaus que não exista mais, mas que é uma cidade que seduz porque foge do clichê dos índios e floresta. É tudo tão misturado com o dia-a-dia e ele escreve tão bem! Bom, os últimos livros que eu li fazem parte da série Amores Expressos (projeto da Cia. Das Letras). Já li o do João Paulo Cuenca que se chama “O único final feliz para uma história de amor é um acidente” e o outro foi o “Do Fundo do Poço se vê a lua”, do Joca Reiners Terron.
Gabriel Bá – O último livro que eu li foi o do Cuenca também.

Como foi o contato com a obra do Milton Hatoum?
FM – Completamente por acidente. Eu li “Dois Irmãos” após ler uma crítica, vi que falava sobre irmãos gêmeos e aí resolvi ler. Foi bem por acidente. Depois li o “Orfãos do Eldorado”. Agora eu tô lendo “Cinzas do Norte” e o Bá ganhou o Relato de um certo oriente”. Nos cruzamos com o Miltom na Flip um ano, nós éramos convidados e ele também. Estávamos tomando café…
GB – Foi emocionante!
FM – Aí “Olha, é o Milton Hatoum…” fomos lá falar com ele. Ganhei Dois irmãos, mó legal.

A obra de vocês costuma ter uma sensibilidade que os diferenciaram da maioria dos quadrinistas consagrados. Como é que foi pra desenvolver essa sensiblidade num mercado dominado por histórias de super heróis?
GB – Acho que foi prática. Vejo vários trabalhos novos, de autores que estão começando e eu penso “olha esse cara pode fazer algo bom, só está meio cru”. Como o processo de fazer história em quadrinhos é demorado, as pessoas acabam fazendo histórias curtas e tem gente que nunca sai disso. As histórias curtas têm um limite que é difícil de aprofundar. À medida que você vai evoluindo, consegue afinar o seu jeito de tratar dos assuntos, colocar mais camadas. É prática.
FM – Há também o quanto você gosta de ler. Quadrinhos, em geral, são mais chapados… não é que sejam superficiais, mas não tem tantas camadas assim. Poucos são os quadrinhos que tem essa camada toda. Tem gente que gosta de ler quadrinhos e acaba se influenciando muito por isso. É preciso procurar outras formas de história, outras influências na literatura, cinema e artes e misturar.  Se não, fica tudo muito chapado.

GB – Acho que é isso. É prática, muita prática. Não adianta você ver muitos filmes e ler muitos livros se não desenhar, escrever. É que nem o futebol. Você tem que jogar muito para ser bom. Tem uma parte de habilidade, mas tem muito treino. Em qualquer outra profissão é assim. Se você não praticar muito, vai de “bubuia”. Mas a nossa idéia não é ir de bubuia no rio, até porque os quadrinhos são um deserto. Nada vai para lugar nenhum se você não fizer movimento.

E música, do que vocês gostam e o que andam ouvindo ultimamente?
GB – Olha música vai sumindo das histórias, porque a gente vai ficando velho e não vai mais para balada ou para show (risos).
FM – É muito diverso e abstrato. Porque eu, por exemplo, sou péssimo para nome de música. Eu adoro samba, mas eu não lembro o nome da música, o nome de quem fez…
GB – De quem canta!
FM – Gosto muito de Cartola, de sambas antigos. Mas ao mesmo tempo tem pouquíssimo samba nas minhas histórias. Eu gosto de dançar, gosto de ritmos como tango, rock dos anos 50, mas não tenho costume de ouvir isso enquanto estou trabalhando, não fico correndo atrás de discos.
GB – A parte triste da nossa vida de quadrinista é que trabalhamos muito. Nós não ouvimos música enquanto trabalhamos. Porque se você está ouvindo música, você presta atenção na letra e precisamos estar muito concentrados durante o trabalho. E nós conversamos sobre a história enquanto trabalhamos, um pede a opinião do outro. Tem a diferença de gosto, eu gosto muito de rock, e o Fábio acha que é muito barulhento. Então é melhor não ouvir música.

Como é feita a divisão de trabalho de vocês? 
FM – Pensamos na ideia juntos, já que quadrinhos demora muito para fazer. Tem que ser uma ideia que os dois gostem para fazermos juntos e desenvolvermos a história, roteiro. Depois decidimos quem vai desenhar, que pode ser quem tem o estilo que combina mais ou quem tem mais tempo. Por exemplo, no Alienista, como eu tinha mais tempo, fui eu que desenhei mais porque o Bá estava fazendo o Casanova.
GB – Ou às vezes o projeto é grande e outro tem que fazer o próximo. Pode ser qualquer coisa. Geralmente temos que decidir qual que vamos desenhar porque poucas são as histórias que tem…
FM – Uma estrutura que caiba os dois estilos diferentes.
GB – Por exemplo, se contar o passado e o presente…
FM – Se não destoa. Colocar  dois estilos diferentes só porque os dois querem desenhar é frescura. Eu, como leitor de quadrinhos, quando mudava o desenhista de uma história de super-herói eu achava estranho, então tem que ter um motivo para mudar esse estilo. Se não tem, nós evitamos mudar ao longo da história.

Vocês gostam de cinema? Ele influencia o trabalho de vocês?
FM – Sim, cinema e literatura são mais referências do que quadrinhos.
GB – Acho que existem histórias muitos boas nos livros e muito bem contadas visualmente nos cinemas. É possível contar boas histórias nos quadrinhos com os dois fatores. Também é possível contar histórias melhores nos quadrinhos. O cinema trabalha muito bem o lado visual e por isso nos influencia muito mais no lado artístico do que os quadrinhos.

Vocês já flertaram com a produção  audiovisual nos curta-metragens “Como se nunca tivesse existido” e “Ontem”. Existem planos futuros nessa direção?
FM – Não como planos. No cinema você depende de muita mais gente, depende do ator, da equipe. Então pode ser frustrante quando alguma coisa dá errado e as vezes não é por sua causa. Em quadrinhos só depende de você. Eu posso fazer uma megaprodução sozinho. Eu escrevo, desenho, coloco quantos personagens eu quiser e tenho o orçamento ilimitado da minha imaginação. Essa criação sem limites precisaria de um orçamento grande para fazer no cinema. Então para nós é muito mais satisfatório fazer quadrinhos.

Uma lua no céu, 10 pãezinhos na mesa

“Ao final do dia, cansado  por ter perseguido  o sol o dia inteiro, o girassol parou para tomar fôlego e olhou pra trás, e foi aí que ele viu. A lua. ” 
O anoitecer da quarta feira, 13 abril, reservou para a jovem equipe do Maodita uma experiência que marca esse pouco mais de 1 ano de existência. Ao lado de Hemanuel Jhosé, do blog Conceito Au, a entrevista com os gêmeos quadrinistas Fábio Moon e Gabriel Bá, 34 anos, foi um presente inesperado (e conquistado) para os leitores. Um presente que, assim como a visita dos gêmeos à cidade, chegou na surdina. O Largo de São Sebastião, no centro de Manaus,  foi o cenário para a dupla falar sobre influências e perspectivas que os acompanham na carreira movida por paixão pela nona arte.
A entrevista é extensa e precisou ser dividida em três partes: Quadrinhos, Imprensa e Internet; Música, Milton Hatoum e curta-metragens; e Daytripper, Manaus e o Futuro.   Agora você confere a primeira parte: Quadrinhos, Imprensa e Internet.
Quadrinhos, imprensa e internet 
Vocês iniciaram a carreira produzindo fanzines e já  estão trabalhando há mais de 10 anos. O que é mais fácil hoje em dia para quem quer começar a produzir HQs e quais os desafios permaneceram até hoje?
Gabriel Bá – Eu acho que hoje é mais fácil publicar quadrinhos, é mais fácil ter acesso à gráficas pra produzir de forma independente e as editoras abriram novamente para publicações de autores nacionais. Todo o resto continuou difícil e talvez tenha ficado mais.
Fábio Moon – Tudo o que é fácil demais, exige esforço de menos. Quadrinhos é uma coisa que você tem que se esforçar. Como ficou mais fácil, tem muita gente preguiçosa fazendo quadrinhos. Eu acho que o lado negativo possa ser esse; as pessoas conseguem de forma muito fácil uma evidência mínima, porque a internet facilita isso, sem ter preparo. Aí ou o público se decepciona ou o autor se decepciona com os tropeços que ele vai ter no início da carreira.
Os quadrinhos no Brasil seguem uma tradição humorística. Baseado em suas experiências, vocês acreditam que essa questão mudou nos últimos anos?
GB – Olha, primeiro não é fácil fazer quadrinhos no Brasil. Seja de humor, infantil ou adulto. Isso é algo que todo autor vai acabar descobrindo uma hora ou outra. Fazer quadrinhos de humor, por exemplo, não é uma garantia de sucesso, de qualidade. Acho que história em quadrinhos não é um campo que tem uma fórmula que seja fácil conseguir um sucesso.
FM – Senão tinha um monte de quadrinhos para criança e não tem. Na verdade tem um monte de quadrinho para criança, mas não fazem sucesso.
GB – Ou de mangá, que é o que mais faz sucesso, e que tem muita molecada que gosta de desenhar. Mas eles não fazem histórias de 200 páginas. Eles não compreendem toda linguagem por trás do estilo do mangá, o tipo de história, o estilo de narrativa, o ritmo, eles só querem fazer o desenho. E se hoje em dia a Turma da Mônica Jovem, que é meio mangá, faz sucesso é por que tem gente por trás disso que faz quadrinhos há muito tempo.
FM – Acho que a gente queria fazer o tipo de quadrinho que queríamos ler, já que era uma coisa que a gente não via em quadrinhos.
GB Quem trabalha com humor é porque realmente gosta e não porque é mais fácil. Fazer humor não é fácil, é muito difícil. Fazer uma coisa engraçada de verdade. Trabalhar com humor, sem ser de mau gosto ou saber o tom do mau gosto, como o Alan Sieber.
FM – O quadrinho de humor explodiu como uma reação à ditadura. Uma reação de não poder falar sério sobre as coisas, então tinham que falar por meio do humor. E quando não tem ditadura não tem mais os rebeldes. Eles vão se interessar por outras coisas. Vão reagir à outras coisas. Aí eu acho que a gente não faz humor por causa disso, não tem que ficar reagindo e falando sobre a sociedade por meio do humor.
GB – É diferente fazer humor e trabalha com humor.
FM – Quem trabalha com humor sempre é engraçado, sempre tem uma piada. Tem por exemplo o Fernando Gonsales (autor de Níquel Náusea), tudo o que ele fala é engraçado. Todas as piadas dele são engraçadas. Ele fez biologia. Então ele só pensa em bichos. Tudo é bicho. Então faz sentido.
Se uma pessoa de uns 18 anos que quer começar a ler quadrinhos pedisse a vocês uma indicação de obra, qual vocês indicariam?
FM – Ah, tem um gibi que a gente leu faz uns 4 anos atrás, o Fun Home (da norte-americana Alison Brechdel). Aquele gibi é bom para jovens adultos. Porque fala meio sobre a descoberta da identidade, a relação com os pais que é uma coisa que só vai resolver depois. Nesse mesmo sentido tem um quadrinho que saiu ano passado chamado Memória de elefante (do paulista Caeto). Fala sobre ser jovem, querer fazer artes e a vida fudida que é essa escolha.
GB – Retalhos (de Craig Thompson) é um bom início de quadrinhos.
FM – É um bom início de quadrinhos para as meninas né?
GB – Ah, para os meninos também.
FM – Ok, para os meninos também.
Vocês tem um trabalho de divulgação consolidado na internet. O que vocês pensam da questão dos direitos autorais no ciberespaço?
FM – Poutz, a gente não dá a mínima. Porque quando a gente não fazia sucesso ninguém baixava nossos quadrinhos. Quando a gente fez sucesso todos baixaram. Então se eles baixam, eles vão ler e talvez comprem. Eu não vejo nenhuma coisa que passou a vender menos por causa dos scans. É tipo um público que já não ia comprar, ou que não conhece, ou que não consegue achar. Mas é um público que está lendo nosso trabalho.
GB – Agora os quadrinhos viraram um negócio caro, então tem que sempre ter mente essa questão econômica. Gibi é caro, graphic novel como nós fazemos é caro.
E quanto aos blogs, webcomics e todas essas facilidades da internet, como isso influencia para quem quer começar?
GB – As pessoas poderiam ter um blog e mostrar um processo de evolução ali, aos olhos do público. Porque tem muita gente que só faz quadrinho no tempo livre, sem ter uma meta.Publicar não é uma meta. Uma meta é querer ser tão bom quanto um artista que você admira. Ou ter uma história tão impactante como alguma que você leu. Poucos artistas têm essa meta. E são esses que se destacam. A internet é uma entrada fácil, mas o caminho é difícil.
Como é a relação de vocês com a imprensa? Vocês sentem que a divulgação de seus trabalhos é sincera por parte dos jornalistas de cultura?
GB – Olha, para ser bem honesto, a relação com a imprensa sempre começa muito do zero. Porque não existe imprensa especializada. Então toda vez que lançamos um livro ou temos algum tipo de destaque sobre o nosso trabalho…
FM – Ficamos com a impressão que começa do zero. Porque tem as mesmas perguntas, são pessoas que não conhecem nosso trabalho ou pessoas que conhecem, mas fazem as mesmas perguntas. Parece que nossa carreira começou naquele livro.
GB – Acham que fizemos sucesso nos EUA para depois voltar para o Brasil. E milhares de coisas. A imprensa deveria informar, mas ela não informa. As pessoas fazem uma notícia hoje que daqui a um minuto já e velha. Amanhã ninguém vai lembrar mais e a mídia impressa sofre com isso. E isso é um problema para um mercado que é muito pequeno e restrito como o dos quadrinhos.
FM – Por muito tempo o mercado de quadrinhos tinha pouco lançamento e isso não justificava ter uma imprensa especializada.
GB – Hoje em dia até  tem, mas não tem resenhas críticas toda semana ou matérias de destaque.
FM – E a gente responde as mesmas perguntas há 15 anos e elas estão na internet há 15 anos e as pessoas não vão à internet atrás para fazer perguntas diferentes.
GB – Sabem que nosso livro está há três semanas como Best-seller do New York Times, mas daqui a uma semana ninguém mais vai saber. Então a imprensa não ajuda.
FM – Mas é porque nós temos uma visão muito crítica das coisas. Temos uma visão crítica dos quadrinhos, então vemos muitos quadrinhos e falamos no que a pessoa pode melhorar. Com a imprensa é a mesma coisa. Porque a imprensa de quadrinhos não pode ser tão legal quanto outras imprensas especializadas?
Muitas histórias que vocês contaram falam sobre o cotidiano das pessoas. Com tantas notícias nos jornais sobre a violência no Brasil, como vocês escolheram retratar esse tema nos quadrinhos?
GB – Olha até agora não muito. Primeiro porque que a violência explorada na imprensa é meio sensacionalista e chavão. Não tem uma contextualização grande, é muito pontual. E nós encaramos nossa obra como algo que seja um retrato de uma época e que sobreviva a um certo tempo. Então não adianta nada eu falar de um negócio que seja muito forte hoje e amanhã pode mudar.
FM – As pessoas morrem em guerra de gangue e tem invasão armada na favela. Mas as pessoas também têm que comprar pão, trabalhar, ter filhos, tem um casamento que dá errado. Essas coisas estão aí também e é sobre isso que nós falamos. E isso o jornal não fala. A novela fala, mas de uma maneira horrível. Porque eles têm o interesse econômico de vender jornal e novela. Então basicamente nós falamos sobre coisas que as pessoas não vendem.
%d blogueiros gostam disto: