Daytripper: um bilhete só de ida

Um dos grandes sucessos dos quadrinhos nacionais de 2011 foi Daytripper, dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá. A história foi lançada primeiro nos Estados Unidos pelo selo Vertigo, da DC Comics, e antes mesmo de chegar ao Brasil já havia faturado o prêmio Eisner e o Prêmio Harvey. Para quem ainda não sabe esses são, respectivamente, o Oscar e o Globo de Ouro dos quadrinhos.

Daytripper narra a história(s) da(s) vida(s) de Brás de Oliva Domingo. Logo de cara o protagonista remete a duas referências, uma no nome e a outra no rosto. Brás também é o nome do personagem de Machado de Assis que narrava sua própria vida do além. E o rosto do personagem parece ser inspirado no do compositor e escritor Chico Buarque, também filho de um importante escritor.

Essas duas referências iniciais poderiam ser indícios para o que se desenrola nas páginas seguintes. Mas dificilmente, a menos que já tenha lido ou ouvido algum spoiler, o leitor vai adivinhar o que acontece no final do primeiro capítulo. Ou mesmo do segundo. E ainda mais no sétimo – de longe o mais sinistro.

A narrativa não-linear dos gêmeos nos leva das lembranças de infância até a velhice do protagonista. Cada fase da vida tem suas próprias prioridades, seus coadjuvantes interessantes, suas tristezas e suas alegrias. A mistura dessas duas últimas, tão comum na cultura brasileira (já dizia Vinícius que pra fazer samba é preciso um bocado de tristeza), é o que mais encanta em Daytripper. E com certeza auxiliou na conquista dos leitores internacionais dos gêmeos.

As referências só melhoram ao longo das 250 páginas. Seja nos nomes que remetem à obras e autores da literatura, como Dante ou Miguel, à música, como Jorge, ou mesmo à outros quadrinhos, como Sandman. A ambientação, assim como nas obras anteriores da dupla, é perfeita, tornando possível sentir uma atmosfera diferente em cada capítulo.

Daytripper leva a produção nacional a um novo patamar. Resta a nós, leitores, procurar as deliciosas referências (intencionais ou não), se inspirar para escrever nossas próprias histórias ou apenas esperar pelas próximas. Quer elas venham dos gêmeos ou de outros autores nacionais, desejamos que sejam sinceras e expressivas como essa. Se tivermos sortes, serão ainda mais significativas.

Afinal, como Moon e Bá bem nos deixam claro, a vida é um bilhete só de ida…

Uma lua no céu, 10 pãezinhos na mesa pt.3

Acompanhe a  tão esperada parte final da entrevista com os quadrinistas Fábio Moon e Gabriel Bá.

Daytripper, Manaus e o futuro

O último trabalho de vocês, Daytripper, está fazendo muito sucesso nos Estados Unidos e na Austrália. Sobre o que se trata a história e quando ela será lançada no Brasil?

Gabriel Bá – O Daytripper é uma história sobre um cara chamado Brás que quer ser escritor. Contamos a história mostrando vários momentos na vida dele que foram importantes para ele se tornar o homem que ele é, momentos que construíram seu caráter. Queríamos trabalhar com a ideia de que qualquer momento na sua vida pode ser importante pra você. Não precisa ser um super acontecimento global, às vezes terminar um relacionamento pode ser algo que vai mudar sua vida dali pra frente. Ou conhecer uma pessoa. Ou publicar um livro, sua vida vai mudar antes ou depois, você começa a enxergar de outro jeito. Como as coisas que acontecem na sua vida vão te transformando e vão construindo sua personalidade. Basicamente, é isso.

Nas  histórias  vocês costumam captar a aura, essência de uma cidade. Como é esse processo?

Fábio Moon – A gente começou focando em São Paulo porque era a realidade que conhecíamos.

GB – Sempre gostamos de autores que usam o cenário para ajudar a história. Quando éramos moleques, lemos o Edifício do Will Eisner. A gente também adorava as histórias do Laerte, porque elas se passavam em São Paulo e nós conhecíamos as ruas, casas e calçadas. Então isso nos influenciou muito, de como você pode agradar o leitor se você caprichar no cenário, colocar um lugar que ele reconheça, pois ajuda o leitor a entrar na história. Sempre pensamos em lugares que façam sentido na história que estamos contando. Quando você trabalha bem o lugar, cria uma camada que pode ser tão interessante quanto o personagem criado.

Durante a pesquisa para produção da Daytripper vocês estiveram em Salvador, cidade na qual se passa a segunda parte da história. Essa experiência deu certo? Ajudou na narrativa?

FM – Não é uma prática comum, mas acho que faz a diferença às vezes. Depende de onde você vai, do que a cidade vai fazer parte da história. Eu acho que fez diferença no Daytripper… a gente pretende fazer sempre que achar que é necessário… (risos)

GB – Estamos em Manaus… (risos) e não só à turismo…

FM – Tem que ter um propósito, porque senão acabamos usando apenas o cartão postal da cidade que a gente não mora, não conhece. E aí depende do propósito, se for só o cartão-postal, tudo bem. Mas se for algo que precise de uma intimidade maior com a geografia da cidade, com o jeito que as coisas acontecem, aí faz diferença.

Se fossem escolher alguma cidade brasileira para aparecer em um futuro quadrinho, qual seria?

GB – Viemos para Manaus para isso, vamos para São Luís, no Maranhão para isso, então… pretendemos ir para o Rio para isso… então.. não sei…

E essa vinda para Manaus e São Luiz vai ser vir para a mesma história?

FM – Ah, isso é segredo (risos). Fazer quadrinhos demora muito tempo, então, como nenhum dos nossos projetos vai sair nos próximos dois anos, nós achamos que divulgar uma coisa numa notícia que só sai daqui a dois anos, não funciona. Já ficamos sem jeito de falar de Daytripper que só sai no fim de agosto… por isso não entramos em detalhe dos projetos futuros porque senão as pessoas esquecem…

E os próximos projetos? No que vocês trabalharão durante 2011?

FM – No Brasil nada sai novo em menos de dois anos, quer dizer Daytripper é lançado no Brasil em Agosto.

GB – Para fora do Brasil tem um Casanova novo, que deve sair em setembro nos Estados Unidos.

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A equipe do Maodita agradece imensamente  a Gabriel Bá e Fábio Moon não só pela entrevista, mas também por nos presentearem com  histórias que sempre são mais do que personagens e cenários. São sentimentos.

P.S. Durante o 1º Encontro Quadrinhos na Cia, que aconteceu no sábado, 21 de maio de 2011, Gabriel Bá e Fábio Moon abriram o jogo e revelaram que estão adaptando para os quadrinhos a obra  Dois Irmãos, do amazonense Milton Hatoum.

Parte 1

Parte 2

Conhece Fábio Moon e Gabriel Bá?

Liderança na lista de quadrinhos mais vendidos do New York Times e nova indicação ao Eisner Awards graças a série Daytripper. Quem ouve notícias dos feitos atuais dos brasileiros Gabriel Bá e Fábio Moon não imagina a trajetória desses irmãos até aqui. Juntos, esses paulistanos de 34 anos já conquistaram 3 prêmios Eisner (sim, o Oscar dos quadrinhos!), além de outros prêmios internacionais como Harvey e o Scream Awards, inúmeros HQ Mix e até um Jabuti .

Apesar de possuírem trabalhos publicados nos Estados Unidos, Espanha, França, Alemanha e Itália, Moon e Bá afirmam que publicação nem sempre deve ser encarada como meta principal para quem quer fazer história em quadrinhos . Para eles, reconhecimento depende de muito esforço e dedicação. “É duro fazer quadrinhos, demora muito tempo, você tem que dedicar horas e horas todo dia. Senão, não vai para frente. Se você não desenhar todo dia, seu desenho não melhora, se você não escrever o tempo todo, seu texto não melhora”, explica Bá.

Por sinal, dedicação é o que não falta. Ao todo, são quinze anos trabalhando com quadrinhos e juntando muita história para contar. Aliás, são essas histórias que trazem os gêmeos a capital do Amazonas. Em Manaus desde o início da semana, os dois contam que conhecer de verdade uma cidade influencia na qualidade de seus trabalhos. “A gente tenta fazer isso para não cair no chavão. Se você trabalha bem o lugar você cria uma camada que pode ser tão interessante quanto o personagem que você cria”, afirma Moon . E adiantam ainda que o resultado de viagens como esta fazem parte de um novo projeto que será publicado só daqui a dois anos.

Mas quem curte o trabalho dos caras não precisa se preocupar, em agosto chega às bancas a versão brasileira de Daytripper, lançada pela editora Panini. Agora é só esperar até o próximo semestre e sempre que quiser matar a saudade : www.10paezinhos.blog.uol.com.br


O MaoDita conseguiu bater um papo com Fábio Moon e Gabriel Bá, o resultado é uma entrevista muito legal que você confere na íntegra nos próximos dias. Não vai perder hein 😉

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